Há um país onde toda a gente tem opinião sobre tudo. E não é uma opinião qualquer. É uma opinião segura, carregada de certezas, com a inabalável convicção de quem sabe o que está a dizer, quase uma sentença. É uma terra fantástica repleta de pessoas dotadas, que, num vislumbre conseguem resolver uma qualquer equação, não raras vezes de grande complexidade, que outros comuns mortais, que não foram abençoados pela chama da clarividência, levam anos, a estudar e a experimentar arduamente sem conseguir chegar sequer a uma solução minimamente decente.
Nesta terra abençoada, todos são mais inteligentes do que todos os outros que os rodeiam. Não é por petulância e muito menos por presunção. É fruto de profundas convicções, algo que vem de dentro, quase uma força da natureza que tem que fatalmente se revelar quando as circunstancias assim o impõem. Um desígnio. Ninguém pretende humilhar outrem com a demonstração óbvia da sua natural superioridade, tanto é que as opiniões e os conselhos são dados com um desprendimento quase displicente, com a singela grandeza dos sábios, que não se arrogam da sua sabedoria, apenas a partilham sem procurar reconhecimento.
Há uma impossibilidade matemática na premissa de que todos são mais inteligentes do que todos os outros, no entanto ela resolve-se com facilidade. Encara-se isto como uma saudável competição, em que toda a gente tem os seus momentos de glória, glória essa que não é procurada, mas sim emerge naturalmente no meio de uma imensidão de contribuições, e, sendo efémera, não reside na alma o tempo suficiente para alimentar a chama da vaidade.
No entanto esse paraíso terrenal tem as suas sombras. A maior de todas é a da ignominiosa inveja de todos ou quase todos os outros países, nomeadamente, e particularmente os circundantes, os quais não conseguindo compreender a filosofia de vida desta honrada e singela gente, os caluniam de todas as formas possíveis. Tomam o desprendimento por incúria ou negligência, a flexibilidade das regras de conduta pela ausência regras morais, e pior que tudo a despretensiosa sabedoria por ignorância atrevida e a generosidade opinativa por vaidade egoísta. Também os alicerces da sociedade são severamente criticados, os sistemas de educação de justiça, a economia e até a governação política, são apelidados de negligentes, desfuncionais, desorganizados e, pasme-se, corruptos. A estupidez é a padroeira da maldade e este é um caso sintomático. Mas para que raio é que uma sociedade composta por gente tão sensata e tolerante precisa de um sistema de justiça a funcionar, gente tão naturalmente sábia precisa de sistema educativo para quê? A economia e a política funcionam quando as pessoas são voluntariosas e empreendedoras.
O que esta limitada gente não consegue compreender é que esse país de sábios por não precisar desses sistemas para nada, encara-os como uma ocupação especulativa, onde pode dar livre azo às suas reflexões filosóficas e exercitar a sua mente construindo complexos "puzzles" com a única finalidade de a seguir os desmontar.
Naturalmente que essas privilegiadas criaturas, encaram as críticas com desdém e até com algum sarcasmo. Para o provar, elegeram para máximo dirigente político um cidadão com o nome de um dos mais reputados filósofos da antiguidade, o qual, gozando ainda mais com os invejosos, deu cabal sentido às críticas, satirizando da forma mais sublime o exercício do poder. Prometeu reformas espantosas que deixaram os ranhosos observadores externos perplexos e depois sardónicamente não cumpriu nenhuma. Mais ainda convenceu os imbecis a emprestar dinheiro para executar a ditas e depois gastou-o despudoradamente em futilidades. Irritou-os particularmente, principalmente aos mais idealistas, quando manipulou a opinião pública, dizendo que estava a defender a liberdade de opinião e os princípios mais sagrados da democracia. Depois de muitas patifarias, feitas aos pobres desgraçados, acabou naturalmente o seu consulado político. Naturalmente também não foi reeleito, o que nesse país é habitual pois os seus doutos cidadãos rapidamente se fartam dos seus dirigentes e logo procuram novos desafios.
Mas sublime, foi quando este ilustríssimo político já demissionário, disse com uma modéstia comovente que ia para uma famosa cidade europeia estudar, imaginem o quê...
...Filosofia.
Humm... Duvido que o deixem matricular-se!...